11 novembro 2015

QUAIS DOENÇAS AS CÉLULAS-TRONCO DO CORDÃO UMBILICAL PODEM TRATAR ATUALMENTE?

Há muita promessa para uso futuro das células tronco; saiba o que elas podem tratar atualmente

Congelar células-tronco do cordão umbilical imediatamente após o bebê nascer virou moda. A ideia é que essas células são uma espécie de “seguro de vida” da criança, que, no futuro, poderia se beneficiar da medicina regenerativa para que qualquer órgão com problema possa ser reconstruído por meio dessas células.

O problema é que, atualmente, essas promessas são apenas... promessas. O uso real que se faz delas atualmente é apenas para transplantes de medula óssea que tratam algumas doenças como leucemia, linfomas, mielomas, aplasia de medula e imunodeficiências congênitas.

“Existe essa ‘promessa’ que as células do cordão umbilical tenham também utilidade para outros órgãos, que pedaços do cordão umbilical poderiam restituir um coração, fígado ou rim. É teórico. Hoje, em 2015, não existe uma utilização prática”, explica Fábio Rodrigues Kerbauy, hematologista especialista em transplante de medula óssea, professor adjunto da hematologia da Unifesp e médico do serviço de hematologia do Hospital Albert Einstein.

Marketing violento

“Existe um marketing violento em cima disso [congelamento em banco privado]. Alguns países da Europa não permitem o congelamento em bancos privados e, sim, no público”, explica o médico. “Aceitamos o congelamento privado quando existe alguma doença genética na família e outro membro dela vá necessitar do transplante de medula óssea. Eventualmente, pode ter um benefício”.

Kerbauy diz que a chance da pessoa que teve seu próprio cordão congelado usá-lo realmente é muito baixa. “A cada 10 mil cordões congelados, um vai ser utilizado a cada 20 anos. Não existe uma justificativa em termos de saúde pública de congelar cordões para uso próprio. Não se justifica para esse fim, é sub utilizado”, diz.

Banco público

Estocar as células-tronco do cordão umbilical em banco público traz um benefício à sociedade porque que isso pode ampliar a possibilidade de um doente encontrar células compatíveis e se submeter a um transplante de medula óssea que pode tratar ou curar seu problema.

A hematologista do Hospital Sírio Libanês, Yana Novis, reforça que, em alguns casos de doenças da medula óssea, as células do próprio cordão umbilical às vezes não são indicadas para o tratamento. “Se essa pessoa ficou doente, significa muitas vezes que existe uma propensão das células dela fabricarem algum tipo de doença. Se uma criança tem leucemia da primeira infância até os 10 anos, talvez a própria célula da criança não seja a fonte ideal para um transplante porque há chance dessas células já estarem transformadas ao nascer. O ideal, nesses casos, é usar células-tronco de outras pessoas”, diz. Nesse caso, o banco público estaria à disposição.

O que é transplante haploidêntico?

Quando alguém recebe a notícia de que seu problema só poderá ser tratado por meio do transplante de medula óssea, há uma procura de doadores compatíveis no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). Essa pesquisa envolve doadores de outros países e, se a medula ideal for encontrada, o doador é avisado para fazer a doação e ela é enviada para o local em que será feito o transplante.

Quando não encontra um doador compatível, há a possiblidade do transplante haploidêntico. “O cordão umbilical ganhou um concorrente”, diz Kerbauy. “O transplante haploidêntico, 50% compatível familiar (pai, mãe, irmão e filho) é uma técnica relativamente nova, que cresceu muito nos últimos dois anos, e vem tomando lugar do transplante de cordão umbilical”.

Nesse caso de 50% de compatibilidade, há um cuidado a mais depois do transplante. “A imunossupressão (que faz com que o corpo não rejeite a medula) é diferente daquela que se faz em um paciente convencional, para que ele possa tolerar apenas 50% de compatibilidade”, detalha a hematologista do Hospital Sírio Libanês.

Concorrente

Kerbauy diz que ainda não há estudos para dizer qual é o melhor, o transplante haploidêntico ou o transplante por meio do sangue do cordão umbilical. “Mas, no Brasil, especificamente, diminuiu muito o número de transplantes com o sangue do cordão porque o haploidêntico é uma técnica mais barata e fácil de ser reproduzida e vem sendo ais frequente do que a do cordão umbilical”.

Reprodução/BBC

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